domingo, 30 de agosto de 2009

A língua catalã

O post de hoje refere-se à uma das línguas mais perseguidas no mundo durante séculos (tanto pelo Estado francês como pelo Estado espanhol): o catalão.

A Língua Catalã

O catalão é uma língua românica, com características comuns às línguas íbero-românicas, como a morfologia (especialmente as flexões nominal e verbal), e às línguas galo-românicas (a fonética e, em parte, o léxico). É usada por cerca de sete milhões e meio de pessoas num território que, na costa do Mediterrâneo, ocupa uma extensão de cerca de mil quilômetros, desde Guardamar, a Elx, ao sul, a Salses, em França, e uma superfície total de 58.000 km² repartidos por quatro estados: Espanha, França, Andorra e Itália.

A área linguística do catalão compreende:

1 - Catalunha Norte (comarcas do Rossilhão, Cerdanya, Vallespir e Capcir, que foram anexadas pela França em 1659 e formam hoje parte do departamento francês dos Pirinéus Orientais);
2 - Catalunha (Principado), que compreende as províncias de Barcelona, Tarragona, Lérida e Gerunda e uma zona fronteiriça de Aragão conhecida por terres de Ponent;
3 - País Valenciano, compreendendo as zonas da costa e as mais povoadas das três províncias de Castelló, Valência e Alicante;
4 - Ilhas Baleares, compreendendo diversas ilhas, as principais das quais são Maiorca, Menorca, Ibiza e Formentera;
5 – A cidade de Alguer (Alghero em italiano), na ilha de Sardenha, pertencente ao Estado Italiano;
6 – Andorra, principado independente, onde o catalão é a língua oficial.

Os primeiros textos em catalão são do século XII. Durante o século XIII o catalão substitui o latim nos documentos e consolida-se nas crônicas da época (do rei Jaume I (foto à direita), Bernat Desclot, Ramon Muntaner, do Rei Pere III...) e na obra de Ramon Llull (foto à esquerda). A influência do provençal nos textos poéticos estende-se até finais do século XV, momento em que a obra de Ausiàs Marc é já inteiramente redigida em catalão. (Abaixo uma das páginas das "Las Homilías d`Organyà", mais antigo escrito no catalão, relato dos sermões em missa de um cura, encontrados em 1904, e que datam entre os séculos XI e XII)

A partir do século XVI o catalão sofre a influência da língua castelhana através da corte do estado espanhol em expansão.

Em meados do século XVII (1659) uma parte da Catalunha cai sob o domínio francês e em inícios do século XVIII (1714) a Catalunha é conquistada pelo exército de Filipe V e perde a independência. Como conseqüência a língua catalã é proibida no estado espanhol. No entanto, continua a ser o idioma corrente da população, apesar da perseguição sistemática exercida. Como desenvolvimento econômico e cultural da Catalunha em finais do século XIX e inícios do século XX, o catalão regressa ao uso público e volta a ser cultivado literariamente. A figura mais importante desta época é sem dúvida Jacint Verdaguer, que, sobretudo com a sua obra L'Atlàntida (1877), dá novas bases à língua catalã moderna. O catalão conhece então uma expansão literária crescente e retoma o seu uso público durante as épocas de poder político catalão (1914-1925, Mancomunitat de Catalunya; 1931-1939, Generalitat de Catalunya; desde 1980, Generalitat de Catalunya). A língua catalã é normalizada a inícios do século XX (1913, publicação das "normas ortográficas" do Institut d'Etudis Catalans, organizadas por Pompeu Fabra), mas é sobretudo durante a Mancomunitat de Catalunya (1914-1925) que a língua literária moderna se consolida pelo seu uso nos meios de comunicação de massas e na escola e por uma produção cultural muito rica.

Na Catalunha Norte, depois da revolução de 1789, o jacobinismo do estado francês acentua a perseguição da língua catalã. As pressões da escola francesa tornam-se ainda mias fortes a partir da 3ª República (1871). O recuo da língua catalã nas comarcas ocupadas por França prossegue de uma maneira progressiva durante todo o século XX, notando-se a partir dos anos setenta uma importante recuperação.


Em Espanha, depois da proibição total do catalão e da cultura catalã a seguir à Guerra Civil, a partir do
s anos sessenta deu-se um renascimento cultural que se estendeu não só à criação literária mas também à canção, ao teatro e mais recentemente à imprensa e ao cinema. Com a democracia, a língua e a cultura catalãs figuram a um nível em muitos aspectos comparável ao de outras pequenas nações européias. Apesar dos grandes déficits causados por muitos naos (para não dizer séculos) de proibição e opressão, hoje publicam-se dois grandes diários nacionais em catalão (o Avui e o Diari de Barcelona), alguns semanários, mais de quatro centenas de publicações de todo tipo a todos os níveis (desde boletins paroquiais a revistas científicas de nível universitário); dois canais de televisão (TV3 e TV2) fazem uso quase exclusivo da língua catalã, além de numerosas estações de rádio (entre as quais há que se distinguir sobretudo duas de âmbito nacional: Catalunya Ràdio e Ràdio 4). Por outro lado, o teatro e o cinema em língua catalã estão florescentes. No setor de edição de livros, publicam-se em catalão atualmente mais de quatro mil títulos anuais e as tiragens médias dos livros em catalão andam à volta de quatro mil exemplares. Um livro de grande êxito, naturalmente, pode superar em muito esta quantidade, e alguns romances, como Mecanoscrit del segon origen de Manuel de Pedrolo, o La plaça del diamant de Mercè Rodoreda (foto à esquerda: capa de uma das edições (esta em castelhano) deste livro), ultrapassaram os duzentos mil exemplares. A literatura em língua catalã vai obtendo um importante eco no mundo através das traduções das suas obras mais notáveis e a língua catalã é ensinada em cerca de quarenta universidades em todo o mundo (como na Universidade Autônoma de Bracelona, na foto à direita).”



FONTE DO TEXTO: SEABRA, Manuel de; DEVI, Vilmala. Diccionari Català – Portuguès. Barcelona: Enciclopèdia Catalana, S.A., 1989, p.5-6.


FONTE DAS FOTOS: Ramon Llull, blog "Pasa la vida - un viaje personal"; Jaume I, "Wikimedia Commons"; "Las Homilías de Organyà", blog "Albert Sampietro"; capa de "La Plaça del Diamant" (numa edição castelhana), blog "Barcelona está longe"; UAB, blog "UniSpain - Study Spanish in Spain".


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