domingo, 23 de agosto de 2009

Anistia, Apolônio de Carvalho, Guerra Civil Espanhola: todos ligados pela luta pela liberdade e o socialismo!

Ontem, dia 22 de agosto de 2009, completou-se 30 anos da Lei de Anistia no Brasil. Com todas as suas limitações, pois livrou da merecida prisão torturadores militares (e este não é um crime político, é de lesa humanidade, imprescritível e imperdoável). Para homenagear àqueles que lutaram pela liberdade e pelo socialismo (afinal, os dois são indissociáveis) no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, realizou-se cerimônia oficial, onde homenageou-se os militantes que presos fizeram greve de fome pela Anistia Ampla Geral e Irrestrita. Este post pode parecer um pouco descolado do tema do blog "Catalunya Brazil", mas não é assim. Ao menos três vezes durante a cerimônia os laços entre Catalunha e Brasil estiveram presentes:

1°) A luta pela liberdade e socialismo une esses lutadores com 70 anos de distância (além dos trinta anos da Anistia, fazem setenta anos do fim da guerra civil espanhola) e se a liberdade e o socialismo foi derrotado à setenta anos, pelo menos a liberdade foi vitoriosa 30 anos atrás.

2°) Um dos homenageados, que sofreu nas mãos dos porões da ditadura e fez todos os dias de greve de fome pela Anistia, continuando a luta catalã pela liberdade e socialismo, era um catalão que veio pequeno ao Brasil: Jesus Paredes Soto, que pode ser visto abaixo no cartaz da Anistia como o segundo sentado da direita para a esquerda.


Extraído do livro "Fome de Liberdade" de Gilney Viana e Perly Cipriano.

3°) No discurso do representante dos presos políticos homenageados, Gilney Viana falou que não eram eles heróis, que quando pensava em um, pensava em Apolônio de Carvalho. Novamente, os laços Brasil e Catalunya, em torno à luta pela liberdade e o socialismo, reaparecem. Este é conhecido como "Herói de três países", ganhador da Cruz de Ferro francesa, lutou contra as ditaduras de Vargas e Militar no Brasil, nas Brigadas Internacionais na Guerra Civil Espanhola e na Resistência Francesa. Abaixo da foto de Apolônio, transcrevemos trechos de seu livro de memórias "Vale a pena sonhar", extraídos da página do portal da Fundação Perseu Abramo. Existe também um documentário do mesmo nome sobre a sua vida, com a direção de Stela Grisolti e Rudi Böhm.


Copyright MST

"Guerra Civil Espanhola

No relato de Apolonio foram esses argumentos, ouvidos de Otávio Malta (dirigente comunista), que o convenceram a ir lutar na Espanha:

«O mundo está diante da ameaça fascista e a Espanha é hoje o principal bastião contra esse perigo comum. Ajuda-la é, com toda a certeza, dever primordial do militante. Mais que uma tarefa honrosa, é uma espécie de privilégio que nos toca a nós, comunistas, resgatar a dívida de solidariedade para com outros povos. Cem anos atrás, já Garibaldi combatia pela República de Piratini, no Sul. Para o surgimento de nosso movimento operário, no início deste século, muito contribuíram o ardor e a experiência dos imigrantes europeus. E agora temos o exemplo de Olga Benário e Elise Saborowiski, entregues à sanha da Alemanha hitlerista; o de Victor Allan Baron, morto na sede da Polícia Central, e o de Arthur Ewert, que em heróica resistência à tortura imolou a própria lucidez. É bem verdade que Abreu e Lima - mais tarde portador de um socialismo religioso - lutou ao lado de Simon Bolívar como seu lugar-tenente. Nosso débito, porém, continua imenso.

E há outros motivos para combater na Espanha republicana - aí o povo ergue bandeiras semelhantes, se não idênticas às da ANL. Sob a direção da Frente Popular espanhola, não faremos mais do que dar prosseguimento à nossa luta. O mesmo combate, só que em terras distantes".

Apolonio comenta:

Ouço-o em emocionado silêncio e de maneira alguma me soam estranhos os argumentos e sugestões - lembram-me os relatos sobre Candoca e Deusdedit que me povoaram a infância. É como um retorno aos serões de família.

Aceito o convite. A luta heróica do povo espanhol canaliza-me, de chofre, todo o entusiasmo acumulado no período da prisão. Logo estarei a serviço de uma causa revolucionária, que agora está vivendo momentos difíceis. Oficial de artilharia e comunista, sou indispensável - não lhe posso faltar."

"Sobre a Brigada Internacional

Constituíamos um grupo homogêneo os combatentes brasileiros na Espanha. Mais que isso, porém, éramos parte do generoso e inexcedível conjunto de estrangeiros que, por se dispor a combater a muerte pela liberdade do povo espanhol, dele recebeu a maior das honras - ouvir dizer a voz caliente de Dolores Ibarruri, la Passionaria, na despedida da Brigada Internacional:

"- Vocês vieram a nós como nossos irmãos [...] oferecendo-se incondicionalmente [...] e nos dias mais duros da nossa guerra.

"[...] Vocês abandonaram tudo: carinho, pátria lar, fortuna, mãe, mulher, filho, irmãos[...].

"E vieram até nós, a nos dizer: Aqui estamos".

"Sua causa, a causa da Espanha, é nossa causa. É a causa de toda a humanidade, avançada e progressista".

"[...] Vocês podem sentir-se orgulhosos. Vocês são a História. São a lenda. São o exemplo heróico da solidariedade e da universalidade da democracia. Mais ainda, soldados do mais alto ideal de redenção humana."

"[...] Os que ficam para sempre, fundindo-se com a nossa terra, [estão] aureolados de nossa eterna gratidão."

"Bandeiras da Espanha, inclinem-se diante de tantos mártires"."

Abaixo cartaz das Brigadas Internacionais:


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