Seguem abaixo duas notícias sobre o editorial dos 12 jornais catalães em defesa do Estatuto da Catalunha, frente a ameaça do Tribunal Constitucional derrubá-lo seguindo um recurso do PP. Aqui as coisas ficam claras: a burguesia catalã defende a união com a Espanha, através de seus jornais, utilizando o Estatuto como forma de dar algumas migalhas aos catalães, enquanto os setores mais reacionários não querem nem mesmo elas. E o PSOE, percebendo que a derrubada do Estatuto, dessa pequena reforma, pode levar os catalães à entenderem que não há espaço para a Catalunha dentro da Espanha. De quê adianta um Estatuto reconhecer que a Catalunha é uma nação, se de fato, hoje nenhuma nação vive sem seu próprio Estado.Imprensa une-se em defesa do Estatuto da Catalunha
26.11.2009 - 21:15 Por PÚBLICO.PT
O recurso, interposto pelo PP, arrasta-se há três anos em tribunal, desde a entrada em vigor do polémico diploma, aprovado pelo Parlamento catalão, pelas Cortes espanholas e referendado na região autónoma.
Os jornais acusam, por isso, o Constitucional de actuar “como uma quarta câmara” e questionam a autoridade da instância para proferir uma sentença, quando só metade dos 12 juízes está em condições de votar (quatro dos magistrados terminaram o mandato e esperam a sua substituição).
O editorial foi publicado no dia em que o tribunal voltou a reunir-se para debater o assunto e depois de ter sido noticiado que várias normas do estatuto podem ser declaradas inconstitucionais. A mais emblemática é a que confere à Catalunha o estatuto de “nação”, dotada de hino e bandeira própria – uma sugestão que irritou os nacionalistas espanhóis mais do que os poderes reforçados atribuídos à Generalitat.
Saindo em defesa do documento, a imprensa catalã diz que ele é um marco da “maturidade democrática de uma Espanha plural”. Avisa ainda que um eventual chumbo porá em causa “pactos profundos” firmados em 30 anos de democracia e abrirá caminho a uma confrontação entre a sociedade catalã e o resto do país: “Há um crescente cansaço por ter de suportar o olhar irritado dos que continuam a olhar para a identidade catalã como um defeito de fabrico que impede Espanha de alcançar a sonhada e impossível uniformidade”.
Os partidos catalães deram total apoio à iniciativa, mas a oposição conservadora alega que “tanta uniformidade [na imprensa] parece suspeita” e provoca “inquietação”.
José Luis Zapatero disse apenas respeitar as opiniões expressas, ainda que um eventual chumbo constitucional possa alimentar a campanha em curso para que a Catalunha referende a sua independência. O líder socialista arrisca também perder o apoio dos catalães, sem o qual não conseguirá fazer aprovar as suas propostas, numa altura em que o país está em dificuldades para sair da recessão.
Catalunha: Editorial conjunto de 12 diários em defesa do Estatuto
26-Nov-2009
Por esquerda.net
Governo de Zapatero tem "muito respeito" pelo editorial, enquanto o PP exige que a imprensa catalã acate a Constituição. O jornal El Mundo contra-atacou.
12 diários da Catalunha (La Vanguardia, El Periódico de Catalunya, Avui, El Punt, Segre, Diari de Tarragona, La Mañana, Diari de Girona, Regió 7, El Nou 9, Diari de Sabadell e Diari de Terrassa) e três grandes rádios publicaram nesta Quinta feira um editorial conjunto em defesa do Estatuto da Catalunha com o título "A dignidade de Catalunha".
O Estatuto da Catalunha foi aprovado há três anos pelo parlamento catalão, referendado na Catalunha, aprovado pelo parlamento de Espanha e promulgado pelo rei em Julho de 2006. Porém, o Partido Popular (PP) está contra ele e o Tribunal Constitucional (TC) pronunciar-se-á sobre ele, provavelmente em breve.
O editorial assinala que "será a primeira vez desde a restauração democrática de 1977" que o TC de Espanha se pronunciará sobre uma lei "referendada pelos eleitores", salienta que a expectativa é grande, considerando que o TC "foi empurrado pelos acontecimentos a actuar como uma quarta câmara", em confronto com os parlamentos catalão e de Espanha e com a "vontade cidadã livremente expressa nas urnas". "Trata-se de uma situação inédita em democracia", refere o editorial, que destaca "a definição de Catalunha como nação", o "direito e o dever de conhecer a língua catalã", a "articulação do Poder Judicial na Catalunha" e as relações entre o Estado espanhol e o governo da Catalunha, como os "pontos de fricção mais evidentes do debate". O editorial sublinha que "há quem volte a sonhar com cirurgias de ferro que cortem pela raiz a complexidade espanhola" e termina afirmando que "se necessário, a solidariedade catalã voltará a articular a legítima resposta de uma sociedade responsável".
Perante o editorial dos 12 jornais catalães, Zapatero, o primeiro-ministro do governo de Espanha, disse que "sente muito respeito" por ele e o ministro do Trabalho e Imigração considerou que representa o "sentir do povo da Catalunha". O editorial terá sido uma iniciativa da imprensa, que deu conhecimento prévio ao governo catalão.
Pelo contrário, o jornal El Mundo contra-atacou, mudou a entrada do site e antecipou a publicação do editorial que será publicado Sexta feira, acusando a iniciativa da imprensa catalã de "cúmulo da hipocrisia", afirmando que "é impossível dizer mais falsidades com pior intenção em menos espaço". Para o jornal os pais do Estatuto "deixaram à margem a média Espanha representada pelo PP". O secretário de comunicação do PP considerou que "não é um conflito político, mas jurídico" e declarou que a imprensa catalã deve "acatar a Constituição".



